Primeiramente, este título é no mínimo épico. Surgiu-me numa tarde solarenga de Fevereiro (eu lembro-me que estava sol porque fui jogar à bola) e vem-me perseguindo desde há muito tempo. Ainda assim (e para que sirva de introdução) cabe-me a mim alertar para algumas das noções em que este meu sarcasmo se apoia. A ‘çena’ visa um conjunto de pessoas (parte da nossa realidade em Portugal) que age/se distingue por um qualquer dos comportamentos abaixo enunciados – eu próprio incluído. Como eu sou felizardo ao ponto de conviver com muitas delas e por isso estar exposto a estas “problemáticas” sou, além de observador crítico, mais um influenciado por esta cultura e sociedade em que nos inserimos. Serve isto para descongestionar as mentes daqueles que por certo se sentirão ofendidos ou pelo menos visados nas próximas linhas que sem mais delongas aqui debito:
As 341 cenas que tens de fazer para ser da ‘çena’
Para seres da ‘çena’, discorda de todas as opiniões que os outros expressam, mesmo que coincidam com a tua.
Se queres ser da ‘çena’, usa a indumentária da moda, com óculos que te cubram quase totalmente a cara. Se possível, combina por sms as roupas que irás vestir no dia seguinte com as tuas amigas/os.
Usa e abusa (e abusa) das expressões “tipo” e “lol” nas tuas conversas, quer escritas ou faladas. Não te trará mais fluência ao discurso, mas pelo menos parecerás fixe.
Troca todos os ‘s’ por ‘x’ em tudo o que escreves. Faz do pitês a tua bandeira e mostra desse modo o teu patriotismo e o teu amor à língua nativa.
Abrevia constantemente qualquer palavra para algo fofinho. Do género ‘xmx’ em vez de ‘sms’ ou ‘bjx’ na vez de ‘beijo(s)’.
Por muito calor que esteja, nunca tires o teu xaile. Deste modo as pessoas saberão que a) és da ‘çena’ e b) gostas do estilo do Yasser Arafat.
Curte apenas bandas fixes, tipo ‘Linkine Parque’. Difama todo e qualquer outro estilo de música porque, simplesmente, não é real.
Se pelo contrário, fores do hip-hop, age da mesma forma. Dá forma ao ‘gangsta power’ e nunca oiças nada que não tenha nomes rudes na letra.
Sê um inopinado. Não ter opinião está na moda. Se não compactuares com esta ideia serás olhado como um lunático, alguém estupidamente inteligente (cujo cérebro chega ao tecto) e sem vida social.
Nunca sejas apologista de qualquer medida tomada pelo governo em regência. Só passados 5 anos é que poderás querer o antigo governo de volta e dar valor às medidas por eles tomadas.
Pensando bem, não uses a palavra apologista. Melhor, não uses “palavras caras”. Corres o sério risco de seres incompreendido e por isso nunca serás um tipo da ‘çena’.
Aposta fortemente nas tendências suicidas e nos comportamentos auto-destrutivos. Dão uma enorme reputação e farão com que o período de adaptação à ‘çena’ seja drasticamente reduzido.
Entoa toda e qualquer palavra que saia da tua boca. Quer sejam afirmações ou discordâncias, olha com desdém para quem respondas e aplica quanta entoação possível. Para melhores resultados, usa a palavra ‘tipo’ à priori do advérbio de negação.
Nem sequer penses em elogiar alguém que conheças. Isso demonstra empatia e se queres ser da ‘çena’, é bom que não caias nessa esparrela.
Sê moralista excessivo. Nunca te acanhes de avisar os outros sobre os perigos pelos quais vão passar. A experiência própria pode ser a chave do sucesso nesta dica. Tem mais graça quando dizes “eu já passei por isso e…”
Apoia a música portuguesa. Artistas como o Angélico, as Just Girls ou os 4 Taste têm de ser valorizados!
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